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As perversões de Lulu e Bolinha

Enquanto a OMS (Organização Mundial da Saúde) planeja retirar as perversões sexuais (como o sadomasoquismo e o travestismo fetichista ) do rol de transtornos mentais, outro tipo de perversidade ganha terreno no campo da sexualidade.
Refiro-me a essa absurda exposição da intimidade de mulheres e homens na internet seja por meio dos aplicativos Lulu e Tubby (nome inglês do personagem Bolinha) seja pela divulgação de vídeos íntimos, já relacionados a dois casos de suicídios de adolescentes.

Lulu, para os poucos que ainda não sabem, é um app em que mulheres avaliam anonimamente o desempenho sexual de homens. Já o Tubby, a revanche masculina, chega aos smartphones amanhã com o slogan “sua vez de descobrir se ela é boa de cama”. Lixo, é o que eu acho de ambos.
Na psicologia, o fenômeno já tem nome: pornografia de vingança, uma reedição da violência de gênero. O assunto é muito sério e deveria estar sendo amplamente discutido em casa, nas escolas e nas diversas mídias.
Como bem lembrou recentemente a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do programa de estudos em sexualidade da USP, desde que o mundo é mundo, a rejeição leva a atos de vingança. Mas, com a tecnologia digital, a internet e as redes sociais, a vingança pode tomar proporções gigantescas. E se tornar devastadora, como vimos nesses dois casos das meninas que se mataram.
Ainda que os mais jovens vivam hoje a sexualidade de forma mais livre, muitos, especialmente os adolescentes, ainda estão aprendendo a se relacionar. Muitas vezes se expõem a brincadeiras que podem acabar mal. Depois, não sabem lidar com sentimentos gerados por essa exposição pública da sexualidade. A menina se sente humilhada, como se isso comprometesse sua vida inteira.
Algumas iniciativas já começam a surgir com o intuito de barrar isso. No Congresso, tramita um projeto de lei criado pelo deputado federal Romário (PSB-RJ) que prevê penas de um a três anos contra o responsável pela divulgação de vídeos ou fotos íntimas.
O projeto tramita em conjunto com outros que falam sobre a proteção contra condutas ofensivas contra a mulher na internet ou em outros meios de propagação da informação.
Ontem, o Ministério Público do Distrito Federal instaurou inquérito civil público para apurar danos morais causados pelo aplicativo Lulu, capaz de “ofender direitos da personalidade de milhões de usuários do sexo masculino”.
Saudade daquela época em que Luluzinha era só a menina heroína de cachinhos, que usava boina e vestido vermelhos, e o Bolinha, o gorducho líder do clubinho onde menina não entrava…

Fonte: Folha de São Paulo dia 03-12-2013
Cláudia Collucci é repórter especial da Folha, especializada na área da saúde. Mestre em história da ciência pela PUC-SP e pós graduanda em gestão de saúde pela FGV-SP, foi bolsista da University of Michigan (2010) e da Georgetown University (2011), onde pesquisou sobre conflitos de interesse e o impacto das novas tecnologias em saúde. É autora dos livros “Quero ser mãe” e “Por que a gravidez não vem?” e coautora de “Experimentos e Experimentações”.